26 setembro 2013

Terra do Nunca



Eu acordo todos os dias, a mesma pessoa de sempre. Nem lembro mais do dia de ontem que se perdeu, e um novo dia se criou, para se tornar o ontem perdido amanhã.
Imagens dilaceradas do "futuro" que eu almejo, juntamente com o medo de que este futuro seja igual à todos os outros, de todas as pessoas, que não fuja do padrão ao qual nos agarramos fortemente desde o dia em que nascemos.

E o medo me consome, e, com fome, eu acabo saboreando meu próprio medo.
Mas, numa memória distante, lembro de uma voz que grita abafadamente:
"Você acredita em finais felizes?"
E então eu fecho os olhos, e me sinto sempre um passo mais próxima da minha Terra do Nunca, e, no meio de tanta luxúria deste mundo real, acabo invejando o mundo irreal, que vive preso na minha cabeça.
Agarro-me nestas minhas ilusões e meu corpo cai na armadilha da realidade, mas minha mente continua presa na Terra do Nunca. 

E quando eu fecho os olhos, todas as cicatrizes desaparecem, não existem arrependimentos, não existe dor, não existe nada.
Era isso tudo o que eu queria, tudo o que eu precisava.

Mas então olhei para trás, e vi que junto com as cicatrizes, foram-se todas as memórias do passado.
Restavam então apenas os sonhos do futuro à minha frente.
Porém eu não conseguia mais correr, já tinha me cansado...
De tanto correr e não chegar a lugar nenhum, e desisti. 

Desisti de correr das palavras que me cortavam e riam da minha alma, então, eu estava junto à solidão, que se tornou minha melhor amiga.
E quando alguém estende a mão para mim, eu fico com medo de perdê-la, a minha melhor amiga.

E também a pior armadilha na qual eu já caí, não tão cruel quanto a realidade, mas tão triste, que me fez construir uma máscara para esconder todas as lágrimas, e um cadeado para trancar todas as verdadeiras emoções.
E depois de tanto tempo, eu olho no espelho do meu interior e vejo que não mudei nada,
que ainda engulo minha voz trêmula, mas talvez não seja só medo, talvez eu já saiba que as palavras bonitas que eu ensaiei não podem mudar o mundo.
Então, estes passos largos e frágeis que eu dou, dirigem-se, tropeçando em minhas lágrimas escondidas, de volta, mais uma vez, para a Terra do Nunca.

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